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A bunda na cadeira

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Na época em que Delfim Neto e Roberto Campos eram ministros, este último sempre saía mais cedo, enquanto Delfim Neto ficava até tarde no escritório. Certa feita, quando Roberto Campos ia saindo, lá pelas 17:00 h, Delfim Neto disparou: – “Que vida boa, queria poder trabalhar menos como você”. Roberto Campos imediatamente respondeu: –“Você acha que eu só trabalho enquanto minha bunda está na cadeira? Eu trabalho é com a cabeça.”

Essa situação mostra o quanto o conceito de trabalho está atrelado ao tempo em que se passa no escritório. Mas, falando francamente, quantas vezes o trabalhador não “faz de conta” que está trabalhando? Se pudéssemos ler a mente do pessoal do escritório ficaríamos abismados em saber quanto tempo se perde pensando em sexo, futebol, problemas domésticos, menos em trabalho. Ao mesmo tempo, se pudéssemos colocar um chip na cabeça de um executivo para monitorar o tempo e os momentos em que está pensando em trabalho, poderíamos ser processados por milhares de esposas sexualmente insatisfeitas porque seus maridos “não pensam naquilo”.

Quantas idéias não são resultado de um passeio de domingo? Ou de uma conversa entre amigos? Ou da leitura agradável de jornais e revistas que se lê no banheiro do escritório, justamente no momento em que se está “enrolando serviço”?

O trabalho mudou, o trabalhador mudou, as vantagens competitivas mudaram. Se antes a produção era o foco, hoje a preocupação é com a inovação e a criatividade. O marketing, a tecnologia e a informação são fatores críticos de sucesso que não existiam como preocupação dos gestores.

A produtividade do trabalhador sempre foi medida em quantidade de itens que saem da linha de montagem, no tempo para fabricar um produto. Mas medir produtividade para trabalhadores em serviços intelectuais é um problema e um desafio.

Quando Ricardo Semler implantou medidas heterodoxas de gestão na Semco[1], uma destas medidas foi acabar com o cartão de ponto e criar o horário flexível de trabalho. Ele compreendeu que o conceito de produtividade mudou. Na época muitos duvidavam da eficácia de suas medidas na prática, mas, apesar das críticas, a SEMCO tem crescido 24% ao ano deste então[2]. Atualmente, no site do Grupo Semco (www.semco.com.br) uma das frases que surgem reflete este modo de pensar: “Na Semco somos rígidos com horários… Todo mundo deve trabalhar no horário em que se sente melhor.”

Precisamos desatrelar trabalho a tempo dentro do escritório, produtividade a tempo de trabalho. Estas coisas não estão mais relacionadas. Mas ainda não sabemos como fazer isso. De qualquer forma, uma coisa é certa: o velho cartão de ponto e a jornada de oito horas são resquícios de um mundo que não existe mais. Infelizmente, as empresas e a própria legislação precisam avançar mais. Precisamos, definitivamente, rever muitos conceitos.


[1] Grupo empresarial que atua em vários segmentos.

[2] As mudanças realizadas por Ricardo Semler na SEMCO, empresa fundada por sua família, deram origem a um livro: Virando a Própria Mesa, publicado em 1988. Este livro virou um best-seller e já vendeu mais de 1 milhão de exemplares.

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