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Por que sempre gostei dos finais de tarde

Eu sempre gostei dos finais de tarde. Em especial as tardes ensolaradas. Quando eu era vendedor, lembro que visitava o prédio do Ministério da Fazenda que fica na zona central de minha cidade, Belém. O prédio fica de frente para a baía. As escadarias do prédio possuem janelas pelas quais podemos apreciar o grande rio que banha a cidade. Ao descer pelas escadas parava nas janelas e ficava olhando aquela paisagem. Isso foi há 23 anos. Até hoje lembro estes momentos.

Muitas vezes não resisti à tentação de parar o trabalho e apreciar o final da tarde. Fazia um passeio, ou simplesmente ía até a beira do rio e ficava ali, sentindo o cheiro da tarde, observando o movimento dos barcos cortando as águas e refletindo os últimos raios de sol do dia.

Eu sempre digo que final de tarde tem um cheiro próprio. Um cheiro de vento fresco, de calor abrandado pelo sol que começa a descansar por trás das nuvens.

Em muitas ocasiões, quando no meio da semana tirava essa folga, sentia-me culpado por fazer aquilo. Como sempre fui muito dedicado ao trabalho, parecia que estava faltando com meus compromissos. Porém, hoje percebo que as lembranças de meu trabalho à época são como quaisquer outras, mas aquela visão do grande rio que banha minha cidade é carregada de emoções. Essas emoções trazem-me um saudosismo saudável de uma fase de minha vida, que talvez, se não fossem esses momentos, estivessem sem sentido.

Percebo que isso acontece com outras experiências. Lembro com tanta saudade de momentos inesquecíveis, carregados de boas experiências, sensações que me fizeram sentir vivo.

Outro dia uma lembrança me fez companhia antes de dormir. Lembrei da viagem à Serra do Cipó, em Minas Gerais. Era noite, por volta das 19h. A estrada depois de Lagoa Santa é deserta, apenas vegetação de um lado a outro. Não tinha iluminação. Com isso, a única luz na estrada era do farol de minha moto. Eu dirigia em direção à lua, que aparecia à minha frente, por cima do vulto dos morros. A luz da lua criava o contorno da vegetação, criando formas escuras perfeitamente identificáveis. A luz do farol da moto, diante deste cenário, criava uma imagem inesquecível. O barulho do motor da moto servia de música tema para aquele momento.

O melhor chocolate que já tomei da vida foi em Bariloche. Aquele frio, o ambiente, e o chocolate cremoso, na espessura perfeita, são sonhos de prazer realizados.

E a serra de Itamonte, na RJ 155? Aquelas curvas infindáveis, subindo e descendo todo tempo. Em alguns trechos as árvores criavam túneis, e a estrada ficava molhada, não pela chuva, mas pelo orvalho. Era como se a serra chorasse por minha presença.

Tantas vezes, quando quero fugir dos pensamentos negativos, fecho os olhos e lembro dos melhores lugares que conheci, das paisagens, das pessoas, dos lugares. É como se vivesse novamente aquelas emoções, e uma saudade gostosa invade meu coração.

Por isso que hoje, mais que trabalhar, quero viver momentos como estes que citei. Não me sinto mais culpado por fugir ao final da tarde para assistir ao pôr do sol. Descobri que são esses momentos que me mantém lúcido diante das inconsistências da vida. Descobri que esses momentos são compensações pelas coisas que a vida nos tira continuamente; dão-nos motivos para passar pelos piores momentos, motivos para ganhar dinheiro, motivos para continuar vivendo.

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