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Estamos preparados para o empreendedorismo?

Muito se tem falado em empreendedorismo. É “lugar comum” falar que precisamos desenvolver uma cultura empreendedora no país, na formação de novos administradores etc. Aliás, muitos projetos têm sido desenvolvidos por diversas instituições neste sentido, como é o caso do SEBRAE[1].

Acreditamos que o perfil empreendedor somente é necessário para quem vai se tornar um pequeno empresário. Entretanto, as grandes corporações são as organizações que mais desejam contratar jovens com espírito e qualidades empreendedoras. Os administradores dessas organizações, acreditam que a mudança para novos modelos de gestão, mais eficientes para lidar com o atual panorama competitivo, só é possível se contarem com profissionais mais empreendedores nos seus quadros.

Mas a pergunta é: estariam as empresas prontas para isso? Dificilmente. O perfil de um empreendedor é contrário ao modelo de gestão empregado na maioria das empresas.

Ilustrarei o que digo com o caso da Ambev, tema de reportagem da revista Exame (dezembro de 2000, p. 62). A reportagem mostrou uma empresa onde as pessoas que erram são grosseiramente repreendidas (mesmo que tentem fazer de uma forma falsamente engraçada). Este tipo de atitude só leva as pessoas a terem medo de errar e a se ressentirem. Leva ao comportamento do tipo “senso comum”.

Outro fato é o tipo de remuneração empregado pela empresa, que conduz o indivíduo a um processo de perda da capacidade de trabalhar em equipe, justamente o contrário de uma das habilidades mais inerentes ao bom empreendedor.

Aliás, grandes empreendedores são pessoas que conseguem gerar motivação nas pessoas em volta, tirar o máximo do seu potencial. Daniel Goleman, em seu livro Inteligência Emocional, fala muito bem sobre a capacidade de relacionamento que têm as pessoas de desempenho superior. Acredito que a cultura difundida na Ambev induz justamente ao contrário.

Seu sistema de remuneração também centraliza o foco da motivação humana no fator econômico, enquanto que os empreendedores são pessoas motivadas pela auto-realização, pela necessidade de transformar seu trabalho em uma extensão de si próprios. Esse processo não conduz à criatividade e iniciativa individual, pois o processo criativo também necessita de um clima contrário ao que a reportagem mostrou ter na Ambev.

Com certeza se perguntarmos a qualquer executivo da Ambev quais as características desejáveis de um funcionário a ser contratado, o empreendedorismo estaria entre uma delas. No entanto, como na parábola bíblica, seria a semente caindo entre as pedras. Cresceria até um certo ponto, para depois morrer por falta de espaço e terra fértil.

Pesquisas comprovam que um ambiente de pressão, de extremo controle, é ideal para a produção máxima e eficiente, mas em longo prazo tende a pouca inovação. Ou seja, uma mudança de paradigma seria difícil de ser notada, pois os visionários provavelmente “levariam tomate na cara”. O ambiente interno também tende a favorecer comportamentos antiéticos (gerados pela extrema competição), conflitos internos e pouca “lealdade sincera” à organização.

Este é só um exemplo do tipo de terreno que encontramos para plantar a semente do empreendedorismo. As organizações precisam estar cientes de que têm de tomar decisões excludentes para se adaptar a um tipo de perfil profissional empreendedor.

O empreendedor precisa viver num tipo de organização que dificilmente vejo nas empresas brasileiras. No entanto, existe hoje um sentimento de urgência em contratar pessoas com este perfil. Talvez por isso o empreendedor acabe por optar por seu próprio negócio, longe de um ambiente castrador.

Deixo, portanto, algumas perguntas para um início de autodiagnóstico.

  • Sua organização está preparada para contratar uma pessoa empreendedora?
  • Seu ambiente interno é propício?
  • Seus processos e estrutura organizacional estão moldados para este tipo de funcionário?
  • O seu sistema de prêmios e participação nos resultados compensa os esforços deste tipo de indivíduo?

 

Responder a essas perguntas é fundamental para que se avalie até que ponto sua empresa está preparada para lidar com profissionais com espírito empreendedor. Caso não esteja, é necessário rever a cultura organizacional, sob risco de sua empresa não conseguir obter os benefícios de trabalhar com profissionais com este perfil, por maior que seja o esforço para contratá-los.


[1] Serviço Brasileiro de Apoio à Empresa

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