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Lucro: cruz credo!

Em entrevista ao Jô Soares, o deputado Roberto Freire citou o lucro recorde que os bancos brasileiros estão tendo. Relacionou os lucros dos bancos com as altas taxas de juros e a situação econômica brasileira. Em seu entendimento, os altos lucros dos bancos são resultado de ganho fácil com a atual política econômica. O deputado esqueceu de citar que os bancos brasileiros foram, no mundo, os que mais investiram em automação e produtividade.

É preciso que se faça a pergunta: bancos com lucros baixos é sinal de economia boa ou ruim? É sinal de eficiência na gestão ou de pobreza da população? Acho justo Roberto Freire se incomodar com lucros excessivos, por ser tratar de um deputado federal. O que me preocupa é que essa forma de pensamento é por demais simplista e baseada em senso comum, em preconceitos, não em fatos.

Existem centenas de empresas – de outros ramos de atividade – que obtêm lucros extraordinários, equivalentes aos bancos. A Petrobrás é um exemplo. Mas ninguém parece se preocupar com a Petrobrás, porque é uma empresa controlada pelo governo. Os lucros de empresas públicas, ou de economia mista, quando “excessivos”, não são alvos de críticas. Isso acontece porque as pessoas acreditam que esse lucro trará benefício para a população. Assim, quando a Petrobrás ganha muito dinheiro, gera orgulho, porque emocionalmente significa uma conquista do “povo brasileiro”. Quando se trata de uma empresa privada, a avaliação ganha outros contornos, os lucros têm que ser limitados. Ou seja, lucros só são “excessivos” quando não são repartidos entre os que criticam os lucros.

Não é de hoje que abolimos o lucro e os juros como meio de ganho justo e honesto. Esse comportamento de grande parte da população se reflete em todos os ramos empresariais. Empresário bem sucedido, empresa lucrativa, não é, para o brasileiro, resultado de trabalho, de dedicação, de esforço, de progresso. Acredita-se que é sinal de que alguém está explorando o outro, de que alguém está sonegando impostos, de que alguém está fazendo falcatruas.

É um comportamento recorrente que gera uma certa ojeriza ao ganho financeiro de empresas. O brasileiro acredita que o objetivo principal das empresas é o social. Entretanto, esquecem que não tem ninguém que esteja disposto a investir seu capital, correr todos os riscos (falência, ações trabalhistas, horas intermináveis de trabalho), para simplesmente fazer o bem ao próximo. Esperamos que os outros façam o que nós mesmos não faríamos.

Temos, na verdade, inveja daqueles que são bem-sucedidos. Ao invés de nos perguntarmos como podemos também ser prósperos, imputamos a essas pessoas as mais sórdidas motivações: ganância desmedida, desejo de explorar o outro etc.

Fernando Collor em grande parte ganhou a eleição para a presidência por causa de sua “caçada aos marajás”. Ou seja, os chamados “marajás” eram funcionários públicos muito bem remunerados, o que causou constrangimento diante da situação salarial do restante da categoria. Temos que mudar a forma de pensar: estamos errados em pagar bons salários para algumas pessoas? Ou estamos errados em pagar péssimos salários para muitas pessoas?

Um alto salário é o que todo mundo quer, mas pensamos da forma inversa: queremos dividir a miséria. Sentimos um certo incômodo com a prosperidade alheia quando ela é muito superior à nossa, por mais que estejamos muito bem.

Não gostamos de ouvir que as empresas brasileiras estão ganhando muito dinheiro, pois isso nos lembra que “nós não estamos”. Por isso vivemos no subdesenvolvimento, pois punimos os que produzem e achamos que os que precisam são as vítimas desses primeiros.

Publicado em 12/08/05

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