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Para os concluíntes

Olhando para os concluíntes que aqui se encontram, reflito sobre que sociedade os espera para o exercício da profissão. Estamos numa época extremamente mutável, cheia de incertezas, em que a tecnologia está mudando tremendamente a forma como nos comunicamos, trabalhamos, nos relacionamos com os outros. O nosso melhor amigo não é mais necessariamente aquele que mora na mesma rua, na mesma cidade, mas pode estar do outro lado do mundo. Muitos não precisam mais estar na empresa para trabalhar, não precisam mais bater o cartão de ponto. Podem trabalhar em casa, de bermuda e camiseta. E mesmo assim estar em contato constante com seus superiores e colegas de trabalho.

Ao mesmo tempo as redes de informação como a internet estão acabando com a hierarquia tradicional, a palavra presente não faz mais alusão ao estar fisicamente em algum lugar.

Os núcleos de poder dentro das organizações também estão mudando, pois estão se transferindo dos níveis das chefias para aqueles que detêm a informação, ou seja, a empresa como um todo. Com a informação distribuída, o poder também será distribuído.

Vivemos a época das grandes organizações, que empregam milhares de pessoas, estão presentes em dezenas de países, com suas filiais, seus centros de treinamento, centros de tecnologia, operações interligadas via satélite. E, apesar de tudo isso, com tantos escritórios, com tantas máquinas, tanta tecnologia, tanto dinheiro, estas organizações cada vez mais precisam das pessoas. Precisam porque enfrentam grandes desafios. O desafio de fazer cada vez mais com menos (a produtividade), de ganhar mais com os mesmos recursos (a rentabilidade), de fazer cada vez melhor (a qualidade). E o tamanho destas organizações, que num passado distante era uma vantagem, agora representa um problema. Por quererem a estabilidade correm o risco de estagnarem. Ao precisarem de ganhos em escala, correm risco de se tornarem ingerenciáveis.

Este é o tipo de organização que os espera, e que cada vez mais reconhecem o valor do capital intelectual que possuem. Esse ativo intangível e essencial. Estas empresas valorizam cada vez mais o potencial criativo das pessoas. Percebem a necessidade que têm de reter os melhores talentos, de dar oportunidades a todos, de tornar o ambiente de trabalho um lugar mais rico de experiências e com mais liberdade de ação. Algumas empresas já nem falam mais da folha de pagamentos como uma despesa, mas como um investimento.

As organizações hoje valorizam como nunca a educação, o desenvolvimento do ser humano. Antes, para as empresas um funcionário que estudasse era um funcionário que não se dedicava integralmente ao trabalho, por isso corria risco de ser demitido, ou preterido de uma promoção. Hoje, quem disser que não quer mais estudar, está pedindo pra sair.

As carreiras lineares também estão acabando. Coisas do tipo: gerente nível I, nível II, nível sênior,  gerente geral, sub-gerente. Há uma preocupação maior em representar a responsabilidade do profissional nos objetivos da empresa do que um nível funcional. Lembro de como uma empresa intitulou a função de sua gerente de atendimento. No seu cartão de visitas dizia: gerente de relacionamentos e encantamento de clientes. Podemos perceber que grande responsabilidade esta executiva tinha dentro da empresa.

Diante desta realidade, o profissional de hoje precisa entender o quê a sociedade e as organizações precisam, o que se espera deles, como podem se destacar num ambiente tão competitivo. E isso não é nada fácil, até mesmo pela forma como enxergamos o mundo até aqui.

Desde a nossa tenra infância estamos acostumados a ver os pais falando que gostariam que seu filho fosse um médico, um engenheiro, um advogado… Ao crescermos e sermos apresentados às pessoas, também fomos apresentados aos seus cargos: fulano de tal, sócio da empresa do escritório de advocacia X, ou diretor do banco Y. Desta forma, fomos definindo nosso valor pelo que ocupamos em termos de papéis. Ou seja, pelo status que podemos adquirir enquanto ocupantes de cargos. E começamos a pensar e agir sob esta ótica. Passamos a acreditar firmemente nisso.

No entanto, a sociedade não precisa de médicos? Precisa, mas antes precisa de quem realmente cuide dos enfermos, entenda sua responsabilidade enquanto profissional. A sociedade precisa de advogados? Precisa sim, mas acima de tudo precisa de homens que nos livrem das injustiças, que consigam acabar com coisas como esta famigerada CPMF. As organizações precisam de publicitários? Com certeza sim, mas antes disso precisam de pessoas criativas, que consigam exercer com maestria seu trabalho, que façam seus clientes progredirem, que traga resultados para eles. As organizações precisam de administradores? Precisam sim, mas precisam muito mais de pessoas que consigam fazê-las crescer e prosperar.

Sob esta perspectiva, quero mostrar que vocês, como profissionais do conhecimento, serão cada vez mais valorizados pelo que fazem, e não pelos seus títulos. A academia, a universidade, deu-lhes o conhecimento, mas seu valor pessoal será medido pela forma como utilizam este conhecimento.

O profissional da era do conhecimento, do capital intelectual, precisa entender essa realidade, seja de que profissão for. Seja ele um advogado, um economista, um publicitário ou um administrador, pois todos estes vivem e trabalham em organizações, com equipes de trabalho. Precisa constantemente buscar sua verdadeira contribuição, ser flexível para entender quando deve mudar de caminho, ser perspicaz para saber quando seu conhecimento se tornou obsoleto – aprender sempre.

E como fazer isso? Aprendendo a gerenciar sua carreira. Primeiramente deve entender que seus defeitos não podem ser tornar obstáculos, por isso precisa avaliá-los constantemente. Mas…, o real segredo está em descobrir quais são suas potencialidades superiores. É nisso que se concentra sua grande chance de sucesso. Se descobrir aquilo em que pode ser o melhor, estará descobrindo em que podemos contribuir para a sociedade, para a organização em que está inserido.

Percebam que todos aqueles que se destacaram, o fizeram por terem uma pelas suas habilidades e qualidades superiores. Vou citar alguns exemplos.

O presidente Franklin Roosevelt na escola era um menino inteligente, mas nunca chegou a ser brilhante. Era magro demais para ter sucesso nos esportes. Mas ninguém sabe disso. A maior lembrança que os americanos têm dele refere-se à sua grande autoconfiança e determinação, de ter sido um grande orador, um político hábil, que era extremamente determinado. Ficou conhecido como o presidente que tirou os Estados Unidos da Grande Depressão.

Gandhi, por exemplo, era extremamente tímido e, acreditem, tinha medo de dormir no escuro. Mas alguém lembra ou sabe disso? Gandhi é mais conhecido pela pregação da não-violência, pelos seus firmes valores, e por sua luta contra a dominação inglesa na Índia.

Algum de vocês saberia dizer se Pelé é foi um bom aluno de geografia? Confesso que nunca me perguntei sobre isso e nunca quis saber. Mas todos sabem que jogava futebol como ninguém. Nisso ele era o melhor e foi assim que entrou para a História.

Winston Churchill, outro exemplo, sofria de sucessivas crises de depressão, aquilo a que chamou de “a grande sombra negra que me acompanha”. Mas a depressão não o impediu de influenciar decisivamente para a vitória dos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, pois tinha era um diplomata e político muito habilidoso.

Acredito que o bom profissional deve articular eficientemente suas características pessoais, transformá-las em algo de valor para si e para a sociedade. Saber o seu papel. Encontrar a si mesmo.

Para isso precisa aprender a gerenciar sua própria vida, seu conhecimento, determinar seus objetivos, avaliar onde estão as oportunidades de trabalho, em quê pode ser útil à sociedade e às organizações.

Uma outra característica do trabalhador do conhecimento é consciência da necessidade de utilizar de forma prática o seu conhecimento. Para este profissional o pensamento não pode ser separado da ação. Não há nada mais inútil do que uma idéia que não foi colocada em prática.

Este profissional também precisa aprender a trabalhar em equipe, porque o conhecimento e a competência individual passam a ser resultado do conhecimento coletivo. Precisa entender que é impossível saber tudo, mas deve saber como encontrar a informação quando precisar.

Se vocês pretendem ocupar posições de liderança, devem se habituar a liderar pessoas mais inteligentes que vocês, que sabem coisas que vocês não sabem, e que, em muitos casos, por seu alto grau de conhecimento, ganhará até mais que vocês. Boa parte das habilidades do líder do futuro não estará em saber mais, mas em saber tirar o melhor proveito da capacidade das pessoas que liderar.

Uma outra questão também se apresenta para o trabalhador do conhecimento: ser especialista ou ser generalista. Cláudio de Moura e Castro diz que o generalista é o que está mais preparado e é mais cotado para os cargos de chefia, no entanto, em outro momento também diz que na medicina a especialidade é importante. Para saber que caminho seguir o profissional do conhecimento deve fazer uma avaliação pessoal a este respeito. Não há uma resposta única, depende das habilidades e aptidões de cada um. Há espaço para todos, desde que sejam competentes.

Por fim, os que não se importam com o quê são, que busquem um cargo melhor para ganhar um melhor salário. Mas, aqueles que realmente querem fazer diferença, que busquem uma grande contribuição, que as recompensas serão superiores em tudo. Em suma, busquem crescer na profissão, não visar posições.

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