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A verdadeira mudança vem de cima

Tenho acompanhado, seja na mídia, seja nos livros, ou por meio de minha própria experiência profissional, casos e mais casos de empresas que buscam se profissionalizar, que passam por crises e procuram se reinventar, cortar custos, mudar processos. Nestas empresas os executivos são craques em criar palavras de ordem, falar em redesenhar processos, cortar despesas, aumentar eficiência, buscar competitividade, mudar cultura etc.

Porém, estes mesmos executivos, ou proprietários, não dão o exemplo. Eles mesmos não mudam seus privilégios, sua maneira de trabalhar e a estrutura que gira em torno deles. Cobram de todos na organização sacrifícios que eles mesmos não fazem. Na busca de custos menores demitem pessoas e sobrecarregam os funcionários, que devem assumir cargas maiores de trabalho sorridentes e felizes por estar “vestindo a camisa” da empresa na pior hora.

Estes gestores também têm um argumento perfeito para demitir pessoas que passaram anos de dedicação à empresa, mas que se tornaram “caros demais”. No entanto, se tivessem abdicado do motorista da empresa e passassem a dirigir seus próprios carros quem sabe poderiam evitar demitir aquele gerente de vendas trabalha há 20 anos na empresa e por isso acumulou alguns benefícios bastante justos, e que conhece melhor que ninguém os clientes e os concorrentes. Ou poderiam reduzir a quantidade de secretárias que possuem à sua disposição e passar a utilizar secretárias comuns a diversas diretorias. Eles resistem a não sair de suas confortáveis e amplas salas para ocupar escritórios modestos. Infelizmente a hipocrisia impera, mas não passa incólume a olhares mais críticos e atentos.

Lembro, para exemplificar, do ex-proprietário do antigo Banco Econômico, que possuía um elevador só para seu uso. Isso mesmo, um elevador para seu exclusivo uso, como se não pudesse se misturar aos reles mortais que comandava. E esse privilégio foi mantido mesmo com o banco enfrentando sua pior crise, que culminou na falência.

Um gestor, ou líder, ou empresário, tem que ser, sobretudo, o exemplo daquilo que pede aos outros. As pessoas percebem a incoerência entre discurso e ação, e a falta desta coerência se traduz em um comportamento cínico dos comandados. Ou seja, eles balançam a cabeça, dizem que estão comprometidos, que compreendem, que irão fazer tudo para seguir a diretriz da empresa, mas no fundo, no fundo, dizem em pensamento: “tá, faz de conta que eu acredito neste teu discurso furado.”

Isso ocorre porque depois de reuniões e discursos inflamados falando das dificuldades que a empresa está passando, estes mesmos funcionários ao final do dia vêem os diretores saírem nos carros de luxo da empresa ao final do expediente. Eles não enxergam as mudanças no topo de hierarquia.

Uma empresa é um sistema, e como tal, funciona com a integração das partes. Não se pode mudar realmente algo se parte do processo continua do mesmo jeito, principalmente se parte deste processo é o topo da organização. Para diminuir efetivamente custos, há que se mudar estruturalmente desde os níveis mais altos da organização. A busca pela eficiência tem que ser uma mudança conjunta, não se pode reduzir custos somente da base da hierarquia, visto que muitas vezes isso até piora a performance. Ou seja, o remédio mata o paciente.

Uma empresa em dificuldades precisa começar a rever toda a burocracia das diretorias, todos os privilégios que só têm por objetivo conceder status aos executivos ou proprietários, e em nada agrega à performance da organização. Aliás, toda a estrutura e os processos da organização têm que ser avaliados pelo valor que geram aos “clientes”. Estes sim têm de ser o foco dos processos, da composição da estrutura. Nenhum departamento, nenhum cargo, nenhum benefício deve ser criado ou mantido se não contribui para melhorar o valor entregue ao cliente. Se um diretor tem um carro à sua disposição (mesmo que ganhe o suficiente para andar no seu próprio carro do ano), isso tem que ser em função da necessidade para que possa ser mais eficiente ao seu trabalho, não somente para lhe dar conforto.

O número de secretários à disposição de um diretor, ou gerente de médio escalão, não pode ser função da preguiça ou falta de habilidade em gerenciar seus compromissos ou agenda, mas sim porque isso lhe concede mais tempo para fazer o que é importante.

Em suma, aumentar a eficiência, reduzir custos, reinventar a empresa, passa por todos os níveis, e tem que ser uma atitude dos líderes, não um comportamento exigido dos subordinados. A hipocrisia desta atitude tem um preço. O preço da frustração em não ver resultados verdadeiros, de não conseguir mudar de verdade, apenas promover o autoengano. Mas ninguém pode esconder a realidade por tempo indeterminado, o mercado não perdoa, um dia ele cobra o preço. Mais cedo ou mais tarde.

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2 Comentários

  1. Izabel Vieira Balieiro disse:

    Em muitas empresas que atuei como consultora vi programas onerosos caírem por terra. Já vi muitas empresas implementarem o mesmo programa da qualidade ou outros, por anos seguidos. O meu diagnóstico é sempre o mesmo – falta de comprometimento da alta direção.
    O funcionário que não vê compromisso em seus líderes, jamais vai se comprometer.

    • Concordo completamente com você Izabel. Os líderes são exemplos. O comprometimento tem que começar por eles. Os sacrifícios também. Mas quantos empresários não cortam custos sem deixar de comprar um carro zero de luxo, de fazer suas viagens ao exterior? Eles querem sacrifícios da empresa, mas querem ao mesmo tempo manter o mesmo padrão de vida. Desta forma eles mesmos se tornam muito onerosos para as empresas. Tornam-se não raras vezes o maior custo unitário do negócio.

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