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Empresas decidem tomar as rédeas da geração de conhecimento

As empresas investem cada vez no gerenciamento do conhecimento gerado internamente. O principal elemento desta tendência é o avanço das Universidades Corporativas. O e-learning corporativo movimentará no próximo ano US$ 7 bilhões no mundo todo. No Brasil, o potencial é movimentar algo em torno de R$ 1 bilhão. Uma das iniciativas mais recentes é a Universidade Carrefour, que entrou em funcionamento há cerca de dois meses.

As universidades corporativas são resultado da necessidade de capacitação dos funcionários num cenário cada vez mais instável, competitivo e complexo. As empresas necessitam que seus funcionários aprendam, mas, acima de tudo, tragam resultados concretos para as suas atividades. E resultados mensuráveis, com objetivos definidos.

Na contramão desta realidade, profissionais que procuram a titulação para usar como cartão de visitas sofrem de miopia. O diploma de uma consagrada universidade ajuda, mas somente enquanto se está fora da empresa. Transformar esse conhecimento aprendido em desempenho no trabalho é o verdadeiro fator crítico para se sustentar uma carreira no novo cenário.

A Caixa Econômica, por exemplo, tem atrelado cada vez mais o fornecimento de bolsas de estudo ao alcance de resultados nos setores em que o bolsista atua. Exemplo: se um funcionário do setor de cobrança solicita uma especialização em crédito, o fornecimento da bolsa integral será atrelado ao alcance de uma melhoria no fornecimento de crédito do setor (uma redução de 10% na inadimplência, por exemplo). Seguindo na mesma linha, na UniAlgar os funcionários só recebem certificação após desenvolverem um projeto que possa ser executado dentro da empresa.

As universidades tradicionais observam este fenômeno e perguntam: por que não nos convidaram para esta festa? A justificativa das corporações é que as universidades não têm o foco no negócio que as empresas precisam. Alguns gestores comentam: “Elas precisariam estender esse processo de disseminação para toda uma cadeia de valor, envolvendo clientes e fornecedores, mas elas pouco entendem do nosso negócio.”

Isso ocorreu em boa parte porque os cursos de graduação não são focados em determinado ramo de atividade ou em determinada empresa, com necessidades específicas. No entanto, as empresas precisam gerar pessoal com conhecimento e capacitação para atender às suas necessidades particulares.

No Brasil, por enquanto, as universidades brasileiras se colocam como meras fornecedoras de conhecimento para estas empresas, mas não está claro que o conhecimento ainda continuará a ser gerado nestas universidades. Muita coisa ainda está por se definir nos próximos anos e o papel das universidades, neste novo cenário, passará por mudanças. Cabe às universidades definirem que papel deverão ter.

Conhecer para sobreviver

As empresas investem cada vez mais no gerenciamento do conhecimento gerado internamente. O principal elemento desta tendência é o avanço das Universidades Corporativas. O e-learning corporativo movimentará em 2006 cerca de US$ 23 bilhões no mundo todo. No Brasil, em 2004, as empresas investiram R$ 80 milhões.

As universidades corporativas são resultado da necessidade de capacitação dos funcionários, num cenário cada vez mais instável, competitivo e complexo.

Até mesmo os órgãos públicos têm se preocupado cada vez mais com capacitação de seus funcionários. Vejam o caso do Banco da Amazônia, que tem investimentos de R$ 50 milhões previstos. Grande parte desse investimento é para capacitação,  treinamento e o uso de novas tecnologias.

As universidades tradicionais observam este fenômeno e perguntam: por que não nos convidaram para esta festa? A justificativa das corporações é que as universidades não têm o foco no negócio que as empresas precisam. Alguns gestores comentam: “Elas precisariam estender esse processo de disseminação para toda uma cadeia de valor, envolverem clientes e fornecedores, mas elas pouco entendem do nosso negócio.”, comenta um executivo.

Isso ocorreu em boa parte porque os cursos de graduação não são focados em determinado ramo de atividade ou em determinada empresa, com necessidades específicas. No entanto, as empresas precisam gerar pessoal com conhecimento e capacitação para atender às suas necessidades particulares.

Educação entra na pauta das empresas como fator estratégico, como vantagem competitiva. A educação para o trabalho e para a vida saiu das salas de aula e invade as empresas.

No Brasil, por enquanto, as universidades brasileiras se colocam como meras fornecedoras de conhecimento para estas empresas, mas não está claro que o conhecimento ainda continuará a ser gerado nestas universidades. Muita coisa ainda está por se definir nos próximos anos e o papel delas, nesse novo cenário, passará por mudanças. Cabe às universidades definirem que papéis deverão ter, e, às empresas dizerem para as universidades suas necessidades.

Objetivos da EAD

 

Com o crescimento da educação a distância inúmeras instituições de ensino superior têm procurado desesperadamente desenvolver projetos de EAD. Esse fenômeno se parece muito com a febre do comércio eletrônico. De repente surge uma crença generalizada e sem fundamento que ninguém irá sobreviver sem dominar a EAD. É claro que há muito de mentira e um pouco de verdade nesta crença. Muito de mentira porque a EAD não é nenhum modelo de ensino que resolve todos os problemas de competitividade, sobrevivência e custos de uma instituição. Um pouco de verdade porque em longo prazo várias tecnologias e metodologias utilizadas em EAD serão definitivamente incorporadas ao ensino presencial – e quem não entender isso ficará para trás.

Por isso, antes de uma instituição iniciar a implantação e o investimento de recursos em EAD é importante que responda a algumas perguntas, estabelecendo primeiramente os objetivos que pretende atingir. E definir os objetivos da EAD é passar por uma reflexão profunda, resistindo a seguir modismos e o senso comum. É preciso definir claramente os benefícios que se espera obter com a EAD.

Sendo assim, a reflexão sobre a implantação da EAD deve buscar respostas que servirão como diretrizes para suas ações. Resumidamente, são quatro as principais perguntas que devem ser respondidas: “por quê”, “para quem”, “com quem” e “como”. Após respondidas essas perguntas é que poderá ser avaliado o sucesso da iniciativa, pois sucesso é atingir o que se quer, mesmo que seja um objetivo tímido. Um projeto de EAD pode ser vitorioso por simplesmente desenvolver pesquisa na área, desde que tenha sido este o objetivo estabelecido.

Para ser mais claro, e didático, vou detalhar mais cada pergunta a ser respondida.

· Por quê?

Desenvolver a EAD dentro da instituição é prioritário? A ausência de know how na área irá comprometer o futuro da instituição? Até que ponto? Pode-se, por exemplo, chegar à conclusão de que a EAD não comprometerá a sobrevivência da instituição, que não é essa sua vocação. Pode-se também chegar à conclusão que a EAD deve ser desenvolvida apenas por necessidade de desenvolvimento metodológico, para agregar valor ao ensino presencial.

Ou, pelo contrário, a IES pode utilizar a EAD como estratégica para atingir novos públicos, ampliar sua atuação geográfica e a base instalada de discentes. Essas são as opções de muitas universidades americanas que agora estão nos nossos calcanhares. Como é de conhecimento geral, há pressão pela desregulamentação do ensino na OMC (Organização Mundial do Comércio) e a EAD será uma forte aliada das instituições estrangeiras.

Decidir por que implantar a EAD implica em ver os recursos aplicados em EAD como investimento ou despesa. Investimento porque buscará aumentar receitas; despesa porque o dinheiro investido não poderá ser inserido na mensalidade ou cobrado como serviço.

· Para quem

Quem serão os mais beneficiados com a implantação da EAD, qual o público-alvo dos projetos? A universidade atende os mais variados públicos: docentes, discentes, comunidade, organizações públicas e privadas. Determinar para quem é definir claramente os públicos que serão atingidos e os benefícios esperados para cada público. Isso influencia diretamente a abrangência dos projetos.

Pela falta de definição clara dos reais beneficiários dos programas de EAD, alguns projetos atendem muito mais aos objetivos acadêmicos de um pequeno grupo de pesquisadores que aos discentes, ou à própria universidade. Nestas situações, os discentes são tratados muito mais como ratos de laboratório do que como a ponta final do processo.

Outros projetos buscam pura e simplesmente o retorno financeiro, sem a preocupação de formar o discente um ser pensante. É o caso de muitos projetos de EAD desenvolvidos por universidades corporativas. A preocupação se concentra muito mais nos resultados que o discente trará para organização, do que nos benefícios pessoais gerados para o discente.

As universidades também podem pensar apenas em si mesmas quando vêem a EAD como uma forma de reduzir custos e/ou aumentar receitas, esquecendo dos docentes e dos discentes.

· Com quem

Depois de refletir sobre as duas questões anteriores temos que pensar quem serão envolvidos no projeto de EAD. A IES poderá optar em envolver pesquisadores, gestores acadêmicos, discentes bolsistas, empresas fornecedoras de soluções, firmar convênios com outras instituições ou contratar consultores.

Inicialmente, pode decidir se a forma de implantação será resultado da discussão de vários setores (geralmente formando comissões) ou será decisão de órgãos executivos (reitoria, pró-reitorias, diretorias, coordenações).

Pode ainda deixar a gerência da EAD a cargo de uma pró-reitoria, de uma diretoria específica, de um núcleo de pesquisa etc. O mais comum é a criação de NEAD´s, que estruturalmente são coordenações executivas. Mas nem sempre esse modelo é o melhor, por carecer de autoridade para tomar decisões mais relevantes e por pouca influência nos outros setores da instituição. Sobre essa questão falarei mais detalhadamente em outro artigo.

Abrindo aqui um parêntese, o que se percebe comumente é a ausência dos discentes nas discussões. Algumas instituições deixam-se dominar pela prepotência intelectual que diz que o discente não tem o conhecimento necessário para participar da discussão, do planejamento da EAD. É comum o discente aparecer no final, como mero sistema de feedback.

· Como

Muitas dificuldades podem aparecer neste momento. Principalmente porque neste ponto se tem a real dimensão dos recursos financeiros envolvidos, dos problemas a serem superados e das limitações da própria instituição. O “como” na implantação da EAD envolver as questões do tipo: onde está o público-alvo? São nossos discentes, são novos discentes, estão dentro ou fora da universidade? Estão concentrados ou dispersos geograficamente? Têm acesso à tecnologia? Podem se deslocar para pólos, ou é preciso ir até eles?

Este momento implica também em definir a metodologia, as mídias a serem utilizadas, a operacionalização, o sistema de apoio ao discente, a necessidade de capacitação de docentes, entre outras coisas.

Na ausência de estrutura interna e em recursos suficientes, a IES pode optar por terceirizar alguns serviços (produção web, provedores de internet, revisores de texto) ao invés de trabalhar com equipe própria. Poderá comprar conteúdos e tecnologias e/ou adotar soluções caseiras.

Um exemplo: devido aos altos custos envolvidos, e à existência de soluções bastante desenvolvidas e testadas, muitas universidades têm optado por utilizar ambientes virtuais de aprendizagem desenvolvidos por empresas, ou softwares livres desenvolvidos por outras instituições, como o TelEduc e o AulaNnet.

Como pudemos ver, desenvolver a EAD não é uma tarefa simples para uma universidade. Envolve grande esforço institucional e riscos. Por isso mesmo é importante que seja feita uma reflexão sobre os pontos apontados. Sem responder a questões fundamentais, a EAD pode implicar em fracasso, frustração e desperdício de recursos. Muitos projetos não tiveram continuidade ou não alcançaram seus objetivos justamente porque no início ninguém estabeleceu claramente o que se esperava da EAD. O pesquisador queria uma coisa, a cúpula da instituição queria outra e o discente, que está na ponta, esperava uma outra totalmente diferente.

Seguirmos os passos necessários não é garantia de sucesso – não sou tão ingênuo para afirmar isso. Mas por certo reduz em muito as possibilidades de fracasso.

A Universidade Virtual: o desafio de ensinar pela internet

 

1. INTRODUÇÃO

As universidades enquanto organizações têm mil anos. As universidades estão entre as organizações mais longevas em nossa sociedade. Por outro lado, sua estrutura de funcionamento e seus métodos de ensino pouco mudaram. Essa constatação se torna surpreendente quando olhamos em volta e vemos como a sociedade, as organizações e as tecnologias mudaram neste mesmo período. É de assustar saber que um aluno do século XVIII, por exemplo, não veria muita diferença nos métodos de ensino se tivesse vivido o suficiente para fazer tal comparação.

As universidades virtuais trazem uma renovação para um modelo de ensino que já dura mil anos. Enquanto organização, as universidades tradicionais ainda estão na fase pré-industrial, como defendem alguns autores. O emprego de novos métodos e novas tecnologias permite uma revolução no modo de ensino tradicional.

Por mais que muitos educadores se questionem se a universidade virtual é um modelo eficiente, se tem qualidade, de uma coisa temos certeza: o ensino que temos hoje não pode continuar como está. O modelo de ensino tradicional já não atende mais às necessidades do mundo moderno. O mundo mudou, o aluno mudou. Falta a universidade mudar, o professor mudar.

Se outrora os alunos aprendiam essencialmente através do texto impresso, a nova geração que chega às universidades aprende de forma “multimídia”. É só parar e prestar atenção. As pessoas hoje utilizam celular para tudo, para bater foto, enviar mensagem, até mesmo – pasmem – para fazer ligação telefônica. As pessoas usam a Internet para comprar, para conversar, até para arranjar casamento. Os mais chiques estão abolindo o cartão de visitas de papelão e entregando mini disc´s. Esse é o mundo em que vivemos, no qual a universidade tradicional cada vez mais parece uma máquina de escrever.

Apresentaremos neste trabalho algumas questões que envolvem o conceito de universidade virtual, o panorama da educação no qual surgiram. Os diferentes modelos, as experiências existentes, diferenças entre as instituições tradicionais, entre outras coisas. Nosso objetivo é levar à discussão, reflexão acerca do assunto. Antes de tudo, porém, é necessário que se compreenda o que é esse modelo, mostrando inclusive alguns exemplos. Reflita conosco, e faça sua própria avaliação.

2. AFINAL, O QUE É UMA UNIVERSIDADE VIRTUAL?

Antes de falarmos de universidade virtual, é preciso que conheçamos o conceito de universidade virtual, no que ela se traduz enquanto instituição. Desta forma, definimos universidade virtual como:

1) Uma instituição que está envolvida como provedor direto ou educação para estudantes e está usando tecnologias da informação e comunicação para ofertar seus programas e cursos e fornecer suporte de tutoria. Como instituições podem também utilizar as tecnologias da informação para outro núcleo de atividades, a saber:

a) administração (marketing, registro acadêmico, serviços financeiros etc.);

b) produção, desenvolvimento e distribuição de materiais (biblioteca virtual, home page com conteúdo de aulas);

c) aconselhamento e assessoramento de carreira/estágio, processo seletivo e exames

2) Uma organização que tenha criado programas para facilitar o ensino e a aprendizagem, através de alianças ou sociedades, sem necessariamente ela estar envolvida diretamente como provedora direta da instrução. Exemplos que podem ser citados:

· Open Learning Agency of Austrália (www.ola.edu.au);

· Western Governors University (EUA) (www.wgu.org);

· National Techonological University (www.ntu.edu);

· Instituto Universidade Virtual Brasileira (www.uvb.com.br);

· The African Virtual University (www.avu.org);

· Universidade Virtual do Maranhão – UNIVIMA (www.univima.ma.gov.br);

· Universidade Virtual – UNIVIR.COM (www.univir.br).

Outra definição de universidade virtual inclui os modelos “híbridos”, ou as instituições que combinam as duas modalidades, utilizando as possibilidades das NTICs com as vantagens do ensino presencial. Essas instituições podem oferecer uma gama de cursos, alguns presenciais e outros através da web ou tecnologias ligadas à Internet. No presente trabalho analisaremos somente as instituições exclusivamente a distância, além de também excluir organizações que não podem ser caracterizadas como instituições de ensino, apesar de estarem inseridas no conceito acima. É o caso das chamadas universidades corporativas.

3. SURGIMENTO DA UNIVERSIDADE VIRTUAL

O surgimento da universidade virtual no Brasil e no mundo aconteceu na década de 90 e está relacionado com a mudança de contexto na área de educação, como ratifica o professor João Vianney (in MAIA (org); 2003: pg. 48):

O final dos anos 90 coincide exatamente com a expansão do uso educacional das tecnologias da comunicação digital, e que passam a permitir, a um custo decrescente, a adoção efetiva de práticas pedagógicas focadas na interatividade entre os agentes, tanto verticais entre professores e alunos, quanto horizontais entre os próprios alunos a distância, permitindo pela primeira vez na história que eles possam formar turmas ou classes remotas em permanente comunicação por mídia digital, abrindo caminho para formar comunidades virtuais de aprendizagem.

No mesmo contexto, a legislação brasileira responde à necessidade de promover a educação a distância através da promulgação da nova LDB 9.394/96, que em seu artigo 80 deixa clara a postura do governo em relação à EAD.

Art. 80. O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.

§ 1º A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União.

§ 2º A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância.

§ 3º As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação a distância e a autorização para sua implementação, caberão aos respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas.

§ 4º A educação a distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá:

I – custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens;

II – concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas;

III – reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de anais comerciais.

Considerando este panorama favorável, e na certeza de que o desenvolvimento da EAD é uma tendência concreta, algumas instituições de ensino começaram a realizar pesquisa e criar projetos de EAD.

João Vianney (in MAIA (org); 2003; pg. 51) destaca as principais instituições de ensino superior que lideraram o surgimento e o desenvolvimento das universidades virtuais. São elas:

· Universidade Federal de Santa Catarina www.ufsc.br

· Universidade Federal de Pernambuco www.ufpe.br

· Universidade Federal de Minas Gerais www.ufmg.br

· Universidade Federal do Rio Grande do Sul www.ufrs.br

· Universidade Federal de São Paulo www.unifesp.br

· Universidade Anhembi Morumbi www.anhembi.br

· Pontifícia Universidade Católica de Campinas www.puccamp.br

· Centro Universitário Carioca www.carioca.br

4. BASES TECNOLÓGICAS

Não há dúvidas quanto ao impacto da internet na educação. A partir do advento da Internet, as possibilidades e instrumentos para o ensino e o aprendizado expandiram-se extraordinariamente. Apesar da existência de inúmeras tecnologias que eram utilizadas pelas instituições de ensino para fazer educação a distância, foi somente a partir da popularização da Internet que houve um grande impulso no sentido da oferta de programas educacionais utilizando a EAD.

A Internet propicia condições para um ensino flexível, que quebra as barreiras geográficas e de tempo. Da mesma forma possui condições para unir diversas mídias de uma forma muito mais dinâmica e interativa. A capacidade de unir áudio, vídeo, imagem e hipertexto descortinou um cenário pedagógico inimaginável dantes. Além dos mais, a Internet é uma tecnologia muito acessível, comparada com outras tecnologias existentes. Apesar dos problemas em massificar o uso e o acesso do computador e da Internet, ainda assim é uma tecnologia altamente disponível e de baixo custo. O impacto da Internet na educação e o surgimento das universidades virtuais estão diretamente ligados.

Existem vários aspectos que envolvem a formação de universidades virtuais enquanto organização. O primeiro aspecto está relacionado às questões pedagógicas/metodológicas. Como ensinar através da Internet é uma questão que está inserida na base de qualquer planejamento de curso a ser ofertado online. Isso implica no desenvolvimento do conteúdo, na definição do papel dos diversos atores (professores, alunos, monitores, pedagogos), no design instrucional etc. O segundo aspecto está ligado à influência da Internet nas relações das instituições de ensino com as organizações e a comunidade. A Internet permitiu a ampliação do espaço universitário, estreitando os laços entre as instituições de ensino e o ambiente no qual estão inseridas. Esses laços caracterizam-se pela integração das atividades e do conhecimento. Ou seja, a universidade virtual, através da Internet, tem a possibilidade de estar virtualmente dentro das organizações (e vice-versa). Permite também maior proximidade com a comunidade e demais interessados nas suas atividades. Não é mais necessário estar dentro do campus universitário para interagir e integra-se à comunidade acadêmica e seus gestores. O terceiro aspecto refere-se à redefinição de campus universitário e dos limites de abrangência da universidade. Se antes as universidades tinham uma área de abrangência delimitada por um espaço geográfico (região, município, país), a partir do surgimento da universidade virtual estas questões precisam ser repensadas. Se antes o campus universitário era o local físico onde se reuniam professores e alunos, onde ocorria o processo de ensino-aprendizagem, como definir campus quando esse processo ocorre no ciberespaço, não delimitado por um tempo (hora-aula), nem por um espaço (sala de aula)?

Considerando o impacto da Internet nos atores do processo de ensino-aprendizagem, notadamente professores e alunos, vemos que a Internet trouxe substanciais mudanças no comportamento destes indivíduos, como podemos perceber a seguir.

a) Os professores estão usando a web para incorporar recursos ao seu processo de ensino. Se antes os professores utilizavam apenas textos distribuídos em sala, o retroprojetor ou o datashow, agora estes professores utilizam vídeos, imagens, animações, hipertexto, e-mail, fóruns de discussão e chats.

b) Os professores estão influenciando seus alunos para usar os recursos da web e eles também estão usando os recursos da web por si próprios. A popularização dos sites de busca, inclusive com o surgimento de sites especializados por assunto, possibilita o acesso à informação, à formação de comunidades de pesquisa, a pesquisas em tempo real sobre publicações, jornais, revistas etc.;

c) Cursos inteiros ou partes substanciais de cursos são oferecidos online;

d) Alunos utilizam e-mail, fóruns, murais, web conferência, ambientes virtuais de aprendizagem para comunicação entre si e fora do campus;

e) Os administradores acadêmicos estão utilizando a web para fazer o gerenciamento do curso, através de sistemas administrativos que utilizam interface web.

A Internet possibilitou a criação de um aparato tecnológico (hardware e software) que dinamiza e otimiza o processo de ensino. Ao mesmo tempo permite a criação de relações entre alunos e professores que antes não existiam. Um exemplo disso são as comunidades virtuais.

Quadro 1 – Diferenças de paradigma

Velho Paradigma E-learning
Baseado no professor Foco no aluno
Sala de aula como local do aprendizado Aprender em qualquer lugar
Hora de aula de ensino como parâmetro de tempo Medida de tempo baseada na aprendizagem
Professor controla o conteúdo Aluno dirige também o processo e tem grande independência
Palestra como método central Diferentes meios (animações, áudio, hipertexto, simulações etc.)
Planejamento e produção individual pelo professor Planejamento integrado e produção em escala, racionalizada

Um dos grandes instrumentos que a Internet permitiu o desenvolvimento, são os ambientes virtuais de aprendizagem, conhecidos também como LMS (Learning Management Systems).

No Brasil, e no mundo todo, várias instituições de ensino desenvolveram projetos para a criação de ambientes virtuais de aprendizagem. O know how para desenvolvimento destes sistemas foi principalmente a partir de 1997, entretanto, somente a partir de 2000 que esta tecnologia foi amplamente difundida.

Destacamos aqui o trabalho da PUCRJ, com o AulaNet, da Unicamp, com o TelEduc, o Eureka, da PUCPR, da Universidade de Columbia (EUA), com o WebCT. Empresas privadas, de olho neste filão também desenvolveram suas próprias plataformas. É o caso de softwares como o Learning Space e o Blackboard.

Atualmente, há uma infinidade de ambientes virtuais de aprendizagem, desenvolvidas por instituições de ensino e empresas privadas, alguns gratuitos e outros pagos. O domínio do conhecimento destas ferramentas e a difusão desse conhecimento propiciou a amplitude das ofertas de cursos online.

4.1. OUTRAS TECNOLOGIAS

Apesar da Internet ser a estrela deste processo, outras tecnologias ganham destaque e são bastante utilizadas pelas universidades virtuais. A videoconferência, por exemplo, é amplamente utilizada na EAD. Alguns projetos no Brasil são pioneiros. Entre eles destaca-se o projeto de videoconferência do Laboratório de Ensino a Distância (LED) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

O projeto de videoconferência da Universidade da Amazônia – Unama, desenvolvido pelo Núcleo de Educação a Distância – NEAD, por exemplo, teve início em 2000 e atualmente interliga as Faculdades Integradas do Tapajós (FIT), em Santarém, com o campus Alcindo Cacela, em Belém. A cada semestre são cerca de 400 horas de aula com professores dos cursos de graduação da Unama. A próxima etapa do projeto prevê a instalação de mais pontos em seis municípios no interior do Estado do Pará, como suporte ao projeto de educação a distância dos cursos seqüenciais.

Outra tecnologia já bastante conhecida, difundida para o uso educacional, é o sistema de transmissão via satélite. Atualmente estão surgindo diversos programas utilizando esse sistema. Para exemplificar, menciono três projetos.

O primeiro projeto é da Universidade do Norte do Paraná – Unopar (www.unopar.br). Através do uso de sistema de satélite, com pontos de recepção espalhados por diversos pólos. Sobre esse projeto, falaremos detalhadamente em tópico específico.

Outro exemplo de utilização de sistema de satélite é a Rede Nacional de Educação Teleinterativa Renaet (www.renaet.com.br). A Renaet é uma rede de ensino a distância por satélite, que consiste na implantação de pontos de recepção em todo o território nacional para oferta de cursos de capacitação. Esses cursos podem ser direcionados aos alunos de instituições de ensino ou para empresas privadas.

Temos também a Universidade Virtual da África (The African Virtual University) que utiliza sistema de transmissão por satélite. Sobre este projeto também falaremos mais adiante.

A escolha das tecnologias utilizadas é uma decisão extremamente importante. Ao decidir por uma ou outra tecnologia a instituição tem que considerar diversos aspectos.

A instituição tem que considerar o custo da tecnologia, a disponibilidade de infra-estrutura e a influência da tecnologia na qualidade do ensino; tem que considerar ainda se os alunos estão qualificados para o uso desta tecnologia e se a tecnologia escolhida trará os resultados esperados.

Voltando à questão dos custos, este é um item muito relevante. Em EAD a tecnologia pode ser o fator crucial quando falamos em viabilidade financeira dos projetos. Na Figura 1 temos um demonstrativo do comportamento dos custos para diferentes tecnologias, até mesmo o material impresso. Há que se avaliar a relação custo-benefício.

Já que falamos em material impresso, vemos na Figura 1 que seu custo de utilização – em pequena e grande escala – não se altera muito. Entretanto, é um tipo de mídia com diversas limitações. Nos métodos de EAD atuais não se admite mais o uso de material impresso sem outros meios, ou mídias.

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Figura 1 – comportamento dos custos de diferentes tecnologias em relação ao número de alunos e o investimento inicial necessário.

5. UNIVERSIDADE VIRTUAL E O PANORAMA DA EDUCAÇÃO

Nos últimos anos a política governamental tem privilegiado o ensino fundamental e médio, notadamente a partir do governo FHC. Desta forma, a crise das universidades públicas foi acentuada. Entretanto, como pode ser visto na Figura 2, a demanda por ensino superior supera a oferta. Essa demanda crescente e não atendida tem duas causas básicas, que veremos a seguir.

1) O investimento no ensino médio gerou uma grande quantidade de alunos aptos a entrar na faculdade.

2) As mudanças no mundo do trabalho praticamente excluíram as possibilidades de emprego digno para os que só têm o nível médio. Isso fez com que muitos alunos que tinham parado de estudar voltassem a procurar um curso superior.

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Figura 2 – demanda por cursos superiores versus oferta de vagas

Dentro deste panorama entendemos os motivos pelos quais o governo considera a EAD como a solução para levar o ensino superior em larga escala para todo o país. A universidade virtual, portanto, enquadra-se como uma das soluções para os problemas aqui citados.

O governo, não tendo recursos para investir nas universidades públicas – até mesmo porque não elegeu isso como prioridade – encontra a solução através de duas ações: incentivar os programas de educação a distância, públicos e privados; e permitir a abertura de novas instituições de ensino privadas.

A forma como o governo adotou a segunda alternativa mostrou-se desastrosa.

A avalanche de novas instituições aumentou de sobremaneira a oferta de vagas e levou a uma crise de oferta, não pela falta de demanda, mas por esta demanda não ter condições de cursar um curso tradicional. Isso aconteceu por alguns erros de avaliação sobre o perfil da demanda, como podemos observar:

1) os alunos que têm poder aquisitivo para bancar os altos custos das IES privadas já estão na universidade. Como o investimento no ensino médio foi feito em escolas públicas, os alunos oriundos destas escolas são de classes menos favorecidas. Ou seja, a demanda cresceu nas classes C, D e E, justamente na parcela da população que não pode bancar a mensalidade de uma faculdade paga. Vemos isso muito claramente na Tabela 1, que mostra a relação entre faixa de renda e valor de mensalidades;

2) grande parte da demanda criada é formada por alunos que trabalham para prover seu sustento e encontram dificuldades em freqüentar cursos tradicionais;

3) da mesma forma, há uma demanda muito grande nas regiões periféricas aos centros urbanos, e de forma muito fragmentada. Ou seja, implantar cursos presenciais nestas localidades é inviável, seja pela falta de recursos humanos qualificados (professores), seja pela inviabilidade financeira de manter um campus universitário. Ironicamente, a oferta se expandiu muito fortemente em grandes capitais, como o Rio de Janeiro e São Paulo. As IES localizadas no Rio de Janeiro foram das primeiras a sentirem o aumento da concorrência e a sobra de vagas.

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Figura 3 – Número de Ingressantes no Ensino Superior por Classe Social (x 1000)

Tabela 1 – Poder Aquisitivo dos Alunos do Ensino Superior

Classe Social  Renda mensal (em R$)  Renda mensal média (em R$)  Valor máximo de mensalidade absorvido(em R$) 
A + > 5.555,00 5.894,00 1.473,50
A – De 2.944,00 a 5.554,00 3.743,00 935,75
B + De 1.771,00 a 2.943,00 2.444,00 611,00
B – De 1.065,00 a 1.770,00 1.614,00 403,50
C De 497,00 a 1.064,00 844,00 211,00

Fonte: IBGE, 2000 (comprometimento da renda familiar com a educação não ultrapassa a 25%)

Tentar atender à demanda por educação superior através do ensino presencial mostrou que não resolve todos os problemas – até mesmo cria outros. O resultado foi uma crise financeira no setor, com aumento da inadimplência e queda da qualidade média do ensino.

O ensino presencial, apesar de ter custos menores de implantação, não consegue substancial redução de custos com o crescimento do número de alunos. Ou seja, não possui redução de custos em função da escala. Essa característica faz com que o valor médio das mensalidades seja muito equiparado – entre grandes, médias e pequenas instituições (ver Figura 4).

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Figura 4 – Comportamento dos custos vs. número de alunos no ensino presencial e a distância.

Por outro lado, apesar dos altos custos de implantação, principalmente os custos dos recursos tecnológicos, a EAD, notadamente através das universidades virtuais, tem a capacidade de atender o grande número de alunos com custos mais baixos, sem queda da qualidade. Isso permite o acesso a pessoas sem renda para pagar um curso presencial. É claro, e tem que ficar bem claro, que isso depende de grande número de alunos.

Para citar um exemplo, na Universidade de Phoenix (www.uopxonline.com), o custo por hora do ensino presencial é de US$486, contra U$237 dos cursos online. Enquanto o custo anual com salários e benefícios de um professor em curso presencial é de US$67,000.00, um tutor online custa US$2,000.00 por ano (RYAN et al; 2001, pg. 19).

O uso de tecnologias de ponta e a mudança nos processos de produção e distribuição do conhecimento vão fazer pelo ensino o que Henri Ford fez pela indústria automobilística. Neste sentido, a EAD representa um modelo de ensino característico de uma sociedade pós-industrial. Os custos no ensino presencial são menores no início, mas sobem proporcionalmente ao número de alunos. Isso traz poucas vantagens em termos de custo e equipara – em termos de competição – grandes e pequenas instituições. As universidades virtuais, entretanto, têm altos custos iniciais por aluno, mas obtém vantagens crescentes à medida que cresce o número de alunos. Existe, portanto, a necessidade de atingir escala e conseguir recursos suficientes para os investimentos iniciais. Investimentos estes que incluem, além da tecnologia, a produção de conteúdos.

Da mesma forma, os custos das tecnologias precisam ser mais acessíveis, tanto para as universidades quanto para os alunos.

Podemos também outros desafios a serem suplantados pelas universidades virtuais, que listaremos a seguir.

1) Capacitação do corpo docente. Os professores ainda não estão preparados para produzir conteúdo para EAD, assim como ensinar através de novas tecnologias.

2) Produção e atualização do conteúdo. O domínio das técnicas de produção de conteúdos, em termos de design instrucional, elaboração de objetos de aprendizagem, animações, vídeo e áudio ainda é incipiente e as experiências neste sentido ainda são recentes.

3) Os alunos ainda valorizam o lado material das universidades (móveis, imóveis, ambientes de estudo, laboratórios). Há resistência por parte do aluno em estudar sem conseguir materializar a instituição de ensino. Faz parte do aspecto cognitivo enquanto fator decisório na realização de um curso.

4) Necessidade de oferecer biblioteca virtual. Além das questões de direito autoral, as editoras ainda não criaram um modelo para digitalização de obras que seja viável financeiramente. Isto prejudica a disponibilidade das principais obras em formato digital, implicando em custos e dificuldades de acesso ao conteúdo.

5) O aluno ainda não possui autodidatismo. É realidade que os alunos ainda estão acostumados ao tipo de ensino tradicional, o que implica em dificuldades de adaptação à metodologia da EAD, que implica em disciplina, capacidade de pesquisa, pro-atividade, entre outras coisas.

6) Oferta de estágios e realização de atividades práticas nos locais onde estão os alunos. Em muitas situações os alunos estão fora dos grandes centros, e, dependendo do curso e da localidade em que reside, há carência de locais onde possam realizar estágios, pesquisas de campo e outras atividades práticas.

7) Resistência por parte dos professores em seguir um programa já pronto. De modo geral, os professores têm preconceito quanto ao uso do livro texto. Dentro da academia há uma idéia difundida de que isso restringe a chamada liberdade acadêmica. A mesma coisa quanto à aplicação de métodos prontos, já programados.

8) Aprimoramento dos sistemas de avaliação. No ensino online precisamos também nos preocupar com a seriedade da aferição da aprendizagem. Considerando que o aluno está em frente a um computador, longe de um professor, como saber se ele mesmo realizou os trabalhos? Como saber se é ele mesmo que está participando do chat? Para resolver estes problemas estão sendo estudadas tecnologias que avaliam a linguagem escrita de um determinado indivíduo, através de padrões. Desta forma, um software pode avaliar – pela linguagem utilizada – quem foi que escreveu o texto. Isso pode também ser utilizado para analisar participações em fóruns. Os chats utilizando webcam também ajudarão a identificar a pessoa que está participando. Neste mesmo sentido, há que se aprimorar os sistemas de avaliação, muito mais dinâmicos, interativos e interdisiciplinares.

Considero que todos os problemas encontrados pelas universidades virtuais são passageiros e é uma questão de tempo para que este modelo de ensino seja incorporado ao cotidiano da maioria da população.

Independente disso, é fato que as universidades virtuais também terão impacto na estrutura de custos do setor e seus métodos de ensino se transformarão em vantagem competitiva. O ensino totalmente presencial já não suporta os altos custos de seu modelo de funcionamento, principalmente quando percebemos que a demanda crescente está nas classes C, D e E, e nas localidades periféricas aos grandes centros urbanos. Ao mesmo tempo, a falência do modelo tradicional de ensino, baseada na lousa e em forma de palestras, fará o aluno migrar para o ensino a distância.

Desenvolvimento Regional e Inclusão Social

É notório que muitas pessoas, para poderem freqüentar um curso que melhor atenda aos seus desejos, têm que se descolar das cidades em que nasceram. Os curso de Astronomia, por exemplo, só existe na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

As universidades virtuais servem como instrumento para o desenvolvimento regional, ao permitir a pessoas residentes em zonas periféricas aos centros urbanos, o acesso à educação, reduzindo o que podemos chamar de “ilhas do saber”.

As populações residentes em localidades distantes, ao receberem formação profissional, atuam como agentes do desenvolvimento local. Assim sendo, o administrador abre uma empresa, o professor uma escola e o técnico em informática pode desenvolver softwares. Além, é claro, de melhorar a eficiência dos serviços prestados dentro da comunidade em que vivem, em diferentes áreas de atuação.

Por outro lado, as universidades virtuais também exercem um papel de inclusão social. Ao possibilitar o acesso ao ensino superior a pessoas que, em outras condições, não poderiam estudar, a Universidade Virtual também funciona como elemento de promoção da cidadania e redução das desigualdades sociais. O acesso a ensino de qualidade e de alto nível sempre foi visto como um modo de controle social das elites. Levar educação a diferentes pessoas, a diferentes lugares, elimina barreiras culturais que mantêm um sistema de dominação excludente.

Educação para o trabalho e no trabalho

Um outro aspecto envolvendo as universidades virtuais é a necessidade de formação continuada, para o trabalho e no trabalho. No passado as pessoas passavam um tempo de sua vida estudando, terminavam sua formação e trabalhavam. Quando precisavam se aperfeiçoar, paravam novamente de trabalhar para realizar cursos ou pós-graduação. Isso mudou, há necessidade dos profissionais estarem continuamente se aperfeiçoando. Esse aperfeiçoamento pode ser feito dentro do local de trabalho.

Esta necessidade levou grandes empresas a investirem em “universidades corporativas”, através de iniciativas individuais ou em parceria com instituições de ensino.

As universidades virtuais, por utilizarem tecnologias de comunicação como a Internet, a videoconferência e o satélite, permitem a integração de seus sistemas de ensino com as empresas. Vimos por conta disso a proliferação de redes de videoconferência empresariais a instalações de telessalas em fábricas, além da integração de ambientes virtuais de aprendizagem com as redes empresariais, sendo administrados cooperativamente entre os parceiros.

Como exemplo desta realidade, podemos citar o caso do Banco da Amazônia – BASA. Seu projeto de EAD consiste na integração por sistema de videoconferência, de todas as agências na Amazônia. O BASA também utiliza ambientes virtuais de aprendizagem. Os investimentos somam 50 milhões de reais para cinco anos.

6. UNIVERSIDADES VIRTUAIS: CASOS CONCRETOS

Como dissemos no início, o conceito de universidade virtual abrange não somente um tipo, mas diversos modelos, utilizando diferentes tecnologias. Uma universidade pode utilizar a tecnologia para a oferta de cursos a distância, oferecendo acesso à educação para um público que tem dificuldades em freqüentar cursos tradicionais. Pode optar por utilizar as NTICs para melhorar a qualidade do ensino presencial, agregando valor aos seus cursos tradicionais. Ou ainda permitir o uso de serviços à comunidade acadêmica. No sistema híbrido, ou dual, uma universidade desenvolve programas em diversas modalidades, de acordo com as necessidades do seu público.

No Brasil recentemente foram criados vários modelos de universidades virtuais – públicas e privadas. Algumas foram fruto de iniciativas individuais de instituições pioneiras. Outras surgiram através da formação de redes, na tentativa de unir esforços no desenvolvimento da EAD. A criação destas redes resultou em grande troca de experiência entre as IES participantes, diluição dos riscos e concentração de investimentos.

Uma das grandes questões que envolvem a formação destas redes e das iniciativas individuais é o foco inicial do trabalho. Por onde começar, quais cursos oferecer, para que público, usando que tecnologias são questões cruciais a serem respondidas.

Decidir pelo mercado corporativo sem dúvida é uma decisão mais simples, no entanto não tem o potencial de crescimento e abrangência de projetos de graduação que envolvem o público em geral. Trabalhar com foco no mercado corporativo também impõe desafios. Historicamente as instituições brasileiras não têm muita prática nesse mercado. Para alguns acadêmicos mais conservadores é a degradação do princípio da universidade, que se curva ao liberalismo econômico.

Oferecer graduação exige maior volume de recursos iniciais, sem falar que das dificuldades legais existentes. Não é à toa que o IUVB passou três anos para conseguir aprovar a oferta de seus cursos iniciais. Até hoje o projeto da Unirede não tem cursos próprios de graduação, apesar de suas associadas já terem projetos neste sentido.

Desta forma, algumas universidades virtuais foram criadas – como veremos – com foco no mercado corporativo, enquanto que outras resolveram investir em cursos tradicionais, como formação de professores.

É claro que atender aos diversos públicos não é excludente. Entretanto, estabelecer um foco inicial é parte de uma decisão estratégica e da criação de uma identidade inicial.

A partir daqui iremos mostrar alguns projetos de universidades virtuais no Brasil e um exemplo fora do Brasil. É importante frisar, antes de tudo, que quem quiser estudar mais a fundo os modelos de universidade virtual, quais cursos elas oferecem, as tecnologias utilizadas, não pode esquecer de procurar experiências fora do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, pode-se fazer até doutorado a distância. Na Espanha também existem programas neste sentido. No Brasil, a CAPES, órgão do MEC que regula a pós-graduação, ainda restringe muito a criação de programas. Conservadorismo? Falta de visão? Pode ser, e pode não ser. Há prós e contras. Entretanto, uma coisa a história mostra: quem mais faz, mais aprende.

Agora vamos aos exemplos.

Universidade Virtual – UNIVIR

Criada em 1996, a Univir (www.univir.br) objetiva ofertar soluções para o mercado corporativo, através de programas de e-learning. Lançada pela UniCarioca, sendo seu braço na área de EAD.

Segundo dados da própria empresa, a Univir conta com mais de 35.000 participantes, em mais de 100 cursos nas áreas de direito, comércio exterior, administração, educação, finanças, informática, letras, marketing, meio ambiente, saúde telecomunicações e hotelaria.

O objetivo da Univir não é vender tecnologias, mas ofertar conteúdo e assessoria para organizações que desejam implementar o e-learning, através de comunidades virtuais de aprendizagem.

A proposta da Univir é colocar todo seu Know how em ensino a distância a serviço destas empresas, de diversas formas. Para isso utiliza um ambiente virtual de aprendizagem denominado EVA (Espaço Virtual de Aprendizagem). Para acessar os cursos, os alunos e professores têm acesso a esse ambiente, que pode ser integrado à Intranet das empresas.

Apesar do uso intenso da Internet, a Univir também utiliza outros recursos, como material impresso, vídeo e CD-Rom, assim como momentos presenciais.

Universidade Virtual Pública do Brasil – UNIREDE

Consórcio que abrange cerca de 70 instituições públicas da rede federal, estadual e municipal, tendo sido criada em 2000. Dentro da Unirede encontra-se também o CEDERJ (Consórcio Centro de Educação a Distância do Estado do Rio de Janeiro).

Através de parceria com o MEC, desenvolveu o programa “TV na Escola e os Desafios de Hoje” e “Formação em Educação a Distância”. Este último busca capacitar professores para trabalhar com educação a distância.

Recentemente o MEC aprovou, para 2005, da abertura de 17.585 vagas em cursos de graduação a distância nas áreas de pedagogia, matemática, biologia, física e química. Muitas das instituições contempladas fazem parte do consórcio Unirede. Todas as vagas são para instituições públicas.

Instituto Universidade Virtual Brasileira – IUVB.BR

Rede formada por 10 instituições privadas, é o primeiro consórcio de instituições de ensino superior privadas. O IUVB (www.uvb.com.br) nasceu oficialmente em agosto de 2000. O objetivo era reunir competências acadêmicas e compartilhar a estrutura física das 10 instituições. Da mesma forma cada instituição contribuiu com recursos financeiros para o desenvolvimento metodológico e a infra-estrutura tecnológica necessária. Como marco da criação do IUVB, em agosto de 2000 foi realização o curso Preparação de Professores Autores e Tutores para Educação a Distância, cuja tutora foi a professora Dênia Falcão.

Fazem parte do IUVB as seguintes instituições:

· Universidade da Amazônia – Unama (PA)

· Universidade Anhembi Morumbi (SP)

· Universidade Potiguar (RN)

· Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal – Uniderp (MS)

· Universidade do Sul de Santa Catarina – Unisul (SC)

· Universidade Veiga de Almeida – UVA (RJ)

· Centro Universitário Monte Serrat – Unimont (SP)

· Centro Universitário Newton Paiva – Unicentro (MG)

· Centro Universitário Vila Velha – UVV (ES)

· Centro Universitário do Triângulo – UNIT (MG)

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Figura 6 – Imagem da tela principal do ambiente virtual de aprendizagem NearYou

A Internet é a tecnologia central utilizada em seus cursos, através do uso de um ambiente virtual de aprendizagem denominado NearYou. Este ambiente virtual de aprendizagem está totalmente integrado ao um sistema de gestão acadêmica Universus. Através deles, o aluno pode não somente ter acesso às aulas, mas também a todos os procedimentos administrativos e acadêmicos de uma universidade presencial, como controle e registro de cadastro, controle financeiro, notas etc.

Oferta de Cursos

Desenvolvida a metodologia e de posse da tecnologia necessária, em 2003 o IUVB recebe autorização do MEC para ofertar quatro cursos de graduação, nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Pará e Mato Grosso do Sul. Os cursos ofertados pelo IUVB:

· Bacharelado em Administração

· Bacharelado em Marketing

· Secretariado Executivo Bilíngüe

· Ciências Econômicas

Os cursos ofertados são 90% a distância utilizando a Internet e 10% utilizando momentos presenciais. Os alunos contam ainda com uma equipe de suporte por e-mail e um telefone 0800 para contato, inclusive aos fins de semana.

Os alunos do IUVB podem realizar o processo seletivo em qualquer uma das instituições que fazem parte da rede. Todo aluno do IUVB tem os mesmos privilégios dos alunos das associadas, utilizando os laboratórios, biblioteca e demais serviços.

The African Virtual University

Para não ficarmos restritos aos exemplos brasileiros, achamos interessante falar sobre a Universidade Virtual da África (www.avu.org).

Criada em 1997, foi desenvolvida como um projeto piloto com recursos do Banco Mundial, com sede em Washington.

Atualmente está presente em países africanos, atendendo 23.000 alunos em áreas como jornalismo, negócios, computação, línguas e contabilidade. Cerca de 40% de seus alunos são mulheres.

Como tecnologia, a AVU utiliza sistema de satélite para transmissão de aulas e ambiente virtual de aprendizagem (WebCT) como suporte e interação. Atualmente estão estudando novas tecnologias, como conexão wireless por sistema de telefonia celular, uso de PDAS e notebooks.

clip_image011Figura 7 – as diversas tecnologias utilizadas pela African Virtual University (AVU)

Universidade Virtual do Maranhão – UNIVIMA

Criada pela Gerência de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior e Desenvolvimento Tecnológico (GECTEC), a UNIVIMA (www.univima.ma.gov.br) está ofertando cursos de Formação de Professores e está ofertando vagas para o Curso Vestibular da Cidadania para Inclusão Social.

Como tecnologias, utiliza sistemas de videoconferência IPTV (www.ip.tv) e o ambiente virtual de aprendizagem TelEduc desenvolvido pela Unicamp.

Unopar Virtual

O Unopar Virtual é um projeto da Universidade do Norte do Paraná – Unopar (www.unoparvirtual.com.br). Através do uso de sistema de satélite, com pontos de recepção espalhados por diversos pólos, é possível à Unopar atender milhares de alunos, ofertando o Curso Normal Superior nas distintas habilitações – Educação Infantil e Anos iniciais do Ensino Fundamental. Também oferece o curso Formação de Docentes para o uso de tecnologias multimídia em EAD.

A Unopar também utiliza ambientes virtuais de aprendizagem para os alunos e os professores interagirem, mas o sistema de transmissão via satélite é a tecnologia central do programa.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

É claro que ainda há muito a conhecer sobre o funcionamento das universidades virtuais. O assunto não se encerra aqui. Não falamos, por exemplo, sobre a qualidade do ensino, os aspectos pedagógicos. Mas esse não foi nosso objetivo.

O que quisemos mostrar foi um panorama geral, de modo levar os conhecimentos básicos sobre o assunto a educadores e outros interessados.

A universidade virtual é uma modelo de instituição novo, estreitamente ligado ao que chamamos de sociedade do conhecimento e sociedade da informação. Em algumas situações substituirá o ensino presencial, em outras será um complemento.

Ao mesmo tempo há muitas tecnologias novas surgindo, novas soluções, enquanto que as tecnologias atuais estão se aprimorando e se tornando mais massificadas. Os custos também tendem a diminuir por conta disso.

Decerto muito há que se aprender ainda, os modelos ainda não estão prontos. Muito do que se aprende, como já disse, é por tentativa e erro. Entretanto, a universidade virtual veio para ficar, por mais que no futuro seja muito diferente do que temos hoje.

REFERÊNCIAS

BITTENCOURT, Dênia Falcão de. Estratégia e tomada de decisões para educação a distância. Tubarão: Unisul, 2003.

DANIEL, John S. Mega-Universities & Knowleage Media: techology strategies for higher education. London: Kogan Page, 1999.

MAIA, Carmen (org.). ead.br: experiências inovadoras em educação a distância no Brasil: reflexões atuais em tempo real. São Paulo: Anhembi Morumbi, 2003. (série Universidade Virtual).

______. Guia Brasileiro de Educação a Distância. São Paulo: Esfera, 2001.

RYAN, Steve et al. The Virtual University: the internet and resourced-based learning. London: Kogan Page, 2001.

SIMPSON, Ormond. Supporting Students in Online, Open and Distance Learning. 2. ed. London: Kogan Page, 2002.

STEPHENSON, John. Teaching & Learning Online: pedagogies for new technologies. London: Kogan Page, 2002.

VIANNEY, João; TORRES, Patrícia Lupion; DA SILVA, Elizabeth Farias. A Universidade Virtual no Brasil. Tubarão: Unisul, 2003.